Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Capítulo 17 - O dia seguinte : Parte I

Eram nove da manhã quando Pedro chegou ao seu escritório. Tinha sido uma noite muito difícil para ele, pois tinha perdido a conta ao número de vezes que tinha ligado para o telemóvel de Inês, sem qualquer sucesso. Ele sabia que tinha procedido mal, mas o erro que tinha cometido não era motivo suficiente para ela ter acabado tudo, sem lhe dar uma nova oportunidade.

Quando chegou ao pé de Carlos, este notou logo que algo se tinha passado. A cara sorridente que o seu amigo tinha tido nos últimos tempos, tinha desaparecido. E ele sabia que Pedro iria precisar muito do seu apoio para ultrapassar esta fase menos boa porque estava a passar. Por isso, achou que o melhor seria mesmo conseguir ele ele desabafasse e perguntou ao amigo se queria fazer uma pausa para tomar um cafe.
Pedro assentiu com ligeiro acenar de cabeça, e desceram até um cafézinho perto do escritório, que estava sempre muito vazio.

- Então, o que é que aconteceu ontem contigo? Porque é que estás assim?
- Ela acabou tudo comigo... – respondeu Pedro num tom muito baixo – Não consigo acreditar...
- O que é que tu fizeste?
- Lá estás tu a assumir que a culpa foi minha.
- E não foi?
- ... Sim, a culpa foi minha, mas acho que ela exagerou bastante e não me deixou explicar porque lhe tinha mentido.
- Mas o que é que lhe disseste para ela não te ter perdoado?
- Eu não fiz nada de mais. Eu tinha-lhe dito que tinho ido almoçar com um colega, pois não queria que ela pensasse que eu estava a sair com outras mulheres... Mas ela viu-me ontem a almoçar com a Patrícia e ficou completamente passada comigo.
- Já devias saber melhor... Mais facilmente se apanha um mentiroso do que...
- Mas foi uma mentirinha inocente. Tu sabes que eu e a Patrícia somos apenas amigos...
- Sim, mas a Inês não. E ainda pioraste as coisas, quando lhe mentiste. Mais valia teres-lhe dito a verdade...
- Mas eu não queria estragar as coisas com ela. Estava tudo a correr tão bem, que não queria causar-lhe uma crise de ciúmes...
- É fácil de perceber que já não estás numa relação séria há muito tempo... Sabes que a confiança é daquelas coisas que mais demora a construir, mas basta uma pequena coisa para a destruir completamente. E começar a mentir, logo no início da relação, por mais pequena que seja a mentira, é meio caminho andado para algo correr mal...
- Agora sei disso, mas ela nem me dá uma oportunidade para eu me desculpar...
- Imagino que ela nem atenda as tuas chamadas...
- Ela rejeita logo as chamadas... Já tentei enviar várias mensagens a dizer-lhe que preciso de falar com ela, mas nem sei se ela as leu....
- Tens de ter calma... Tens de ser paciente e dar-lhe algum tempo para acalmar.
- Achas que ela irá alguma vez atender as minhas chamadas?
- Acho que se ela gosta tanto de ti como tu dizias, então mais cedo ou mais tarde, vai acabar por ceder, e dar-te uma hipótese para explicares...
- Achas mesmo?
- Tenho a certeza disso. Só não te posso garantir que as coisas voltem a ser como dantes...
- Eu sei disso, mas se ela me ouvir, tenho a certeza de que ela compreenderá que só lhe menti, pois gosto tanto dela que não a queria magoar.
- Vê-se mesmo que tu não és o Pedro que eu conhecia... A pensar no que os outros sentem antes de pensar nele...
- O amor que sinto por ela mudou-me muito. Podes achar que eu estou a exagerar, mas quando estou com ela, quero ser uma pessoa melhor por ela... Nem imaginas o que me está a custar saber que ela não me quer ver mais...
- Achas que não? Todos os que amaram verdadeiramente alguém, muito provavelmente também já sofreram por esse amor. E nem todos acabaram por conseguir o que queriam.
- Já percebi que és um expert nessa matéria.
- Quem me dera poder dizer que nunca sofri assim. Mas posso dizer-te que as coisas melhoram e que nem tudo está tão mal como pode parecer...
- És mesmo um romântico incorrigível. Mas eu não sou assim. E tenho muito medo de perde-la... Mas já sabia que isto só poderia correr assim. Sempre que me acontece alguma coisa boa, acabo por estragá-la...
- Pedro.. Tem calma... se ela gosta mesmo de ti, então tens de ter paciência. Quando ela também se acalmar, já terás maior facilidade em explicar-lhe tudo. Talvez o melhor seja dares-lhe algum tempo para ela reflectir. Tenho a certeza de que ela vai responder ao teu telefonema... Mas dá-lhe algum tempo. Não estragues ainda mais as coisas...
- Mas eu não consigo fazer nada enquanto não souber que as coisas estão resolvidas entre nós os dois...
- Ouve-me... Se queres ter alguma hipótese com ela, tens de ouvir o que te digo. Tu cometeste um erro... Tens agora de arcar com as consequências... mesmo que isso implique sofrer enquanto ela não te perdoa.

Pedro reflectiu nas palavras do amigo e soube que ele tinha razão. Mas ele tinha medo dela nunca mais querer falar com ele.. Mas lá no fundo, ele sabia que Carlos tinha razão...

Carlos tentou consolar o seu amigo e dar-lhe alguma esperança de que Inês iria ser capaz de lhe perdoar... Mas chegou a um ponto em que percebeu que o seu amigo nunca iria voltar ao normal, enquanto não falasse com ela.

E isso viu-se durante o dia todo. Carlos notou que Pedro estava constantemente distraído durante os brainstormings para a nova campanha... Sempre que alguém lhe pedia uma opinião, notava-se que ele não estava a acompanhar as ideias lançadas pelos colegas. Decididamente, não era o Pedro que todos conheciam...

Pedro estava a sofrer... Não se lembrava de ter sofrido no passado por alguém de quem gostava tanto... Ele já tinha estado do lado oposto... E sentia-se agora um pouco culpado por ter feito sofrer algumas das raparigas com quem tinha estado e que tinham esperanças de ter uma relação séria com ele, e que a partir de certa altura ele tinha deixado de dar notícias... Era assim que se sentia alguém com o coração partido...

Ele pensou várias vezes durante o dia em ligar novamente para Inês, mas as palavras da Carlos ecoavam na cabeça dele... Talvez fosse mesmo pelo melhor dar-lhe algum tempo... Mas o que iria ele fazer entretanto? Sentia aquela sensação de perda de algo que nada conseguia preencher...

Quando saiu do escritório, ainda pensou em ir a um bar perto de sua casa para afogar as mágoas, mas achou que isso não iria resolver a situação... Podia faze-lo esquecer por umas horas a dor que estava a sentir, mas de manhã quando acordasse, tudo iria estar na mesma... Decidiu então ir para casa... Assim que chegou, pensou em preparar o jantar, mas não estava com fome... Ao contrário do que acontecia na grande maioria dos dias, estava sem qualquer apetite... Só lhe apetecia ligar novamente para Inês... Mas conseguiu controlar os seus impulsos a muito custo...

Mas não conseguia evitar olhar para o seu telemóvel de cinco em cinco minutos. Ele esperava desesperadamente que Inês lhe ligasse para resolverem as coisas. Ele sentia às vezes que se olhasse para o telemóvel iria fazer com que Inês lhe ligasse mais depressa. Mas ele sabia que estava a ser irracional... Mas não o conseguia evitar... Realmente o amor transforma as pessoas... Ele sempre tinha sido uma pessoa confiante, com uma grande autoestima, e que não se preocupava com a impressão que os outros tinham dele... Mas desta vez, estava completamente inseguro sobre si e por vezes passava-lhe pela cabeça que Inês nunca mais lhe iria perdoar.

E foi nesta ângustia permanente que Pedro passou a noite inteira até finalmente adormecer a altas horas da madrugada, sem ter tido qualquer notícia de Inês...

publicado por Matt Xell às 23:54
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Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Capítulo 16 - A primeira discussão

Pedro tinha regressado ao escritório após o almoço. Estava satisfeito por finalmente ter tido a oportunidade de falar com Patrícia. Ele já estava a sentir-se culpado por ter escondido durante tanto tempo a sua vida amorosa a uma das suas melhores amigas. Ele prezava os conselhos dela mais do que os de ninguém, pois não existia ninguém em cujos conselhos confiasse mais. E ela achava que ele devia dizer a Inês o que sentia.

Ele tinha estado a pensar constantemente nisso nos últimos tempos, e estava bastante indeciso, mas Patrícia tinha-o completamente convencido a dizer a Inês que a amava. Ele sabia que era um risco pois não tinha a certeza de que ela sentisse a mesma coisa por ele. Mas sentia que tinha de lhe dizer que a amava de verdade, como nunca tinha amado ninguém. Na verdade, ele já tinha dito a várias raparigas que as amava, mas sentiu que esta era a primeira vez em que estava a ser sincero, do fundo do seu coração.
Por isso, o seu coração batia de forma acelerada. Ele não parava de pensar na reacção dela quando ele lhe dissesse, pois desejava no seu íntimo, que ela sentisse o mesmo. Mas tinha tomado a decisão, e não existia nada que o fosse demover.

E hoje iria ser o dia em que lhe iria contar. Ligou a Inês para combinarem jantar juntos nessa noite. Mas algo parecia diferente. A forma como ela lhe tinha falado tinha sido um bocado esquisita. Ele sentia que algo estava errado, mas não sabia o quê. Talvez tivesse sido o exame que lhe tivesse corrido mal, ou outra coisa qualquer. Mas ele sabia que ela estava distante.
Quando desligou, Pedro começou a duvidar novamente se seria boa ideia dizer a Inês que a amava. Era um passo importante, e o facto dele não ter reconhecido naquela pessoa com quem tinha falado ao telefone a rapariga que tanto amava, mostrou-lhe que afinal não a conhecia tão bem. Seria ainda cedo demais, e estaria a precipitar-se? A indecisão começou a pairar na sua mente, mas decidiu que tinha de lhe dizer o que sentia.

- Então, quando é que lhe vais dizer-lhe? – disse Patrícia, ao mesmo tempo que lhe tocava suavemente no ombro. – Já decidiste?
- Ah? Ainda não sei. Talvez hoje à noite? – respondeu Pedro, visivelmente apanhado de surpresa pela frontalidade da sua amiga.
- Só hoje à noite? Não achas que lhe devias dizer-lhe agora?
- Agora? Não sei se é daquelas coisas que lhe devia dizer ao telefone, sabes?
- Mas do que é que estás a falar? Ele está ali, na sala dele, à espera de que digas alguma coisa sobre a campanha. É só levantares o teu rabo dessa cadeira, andar dez metros e entrar no gabinete dele.
- Desculpa. Pensei que estavas a falar de outra coisa. – Vou já ter com ele.
- Não me digas. Estavas a pensar naquela pessoa de quem falamos no almoço.
- Tu já me conheces. Achas que eu estaria a pensar em assuntos pessoais no meu horário de trabalho?
- Queres mesmo que te responda a isso?
- Não, é melhor não...
- Sempre vais dizer-lhe, não vais? – perguntou-lhe, pois ainda tinha a pequena esperança de que ele não seguisse o conselho que ela lhe tinha dado e mudasse de ideias. Talvez ele lhe dissesse que afinal já não amava aquela rapariga.
- Hoje à noite... Nem sei como lhe vou dizer...
- Sinceramente, acho que não deves planear nada. Sê tu próprio, e acho que as coisas irão sair-te naturalmente. Tu és das melhores pessoas a improvisar sobre pressão, como tantas vezes demonstraste aqui.
- Mas isto é diferente. Eu não quero que nada corra mal.
- Eu sei. Mas tenho a certeza de que tudo vai correr pelo melhor.- disse Patrícia, ao mesmo tempo que era chamada pelo chefe com alguma urgência.

Ao levantar-se, emitiu um pequeno suspiro que passou despercebido a Pedro, pois apercebeu-se que já não conseguia fazer mais este papel de melhor amiga. Cada vez que tentava apoiar Pedro e dar-lhe força para dizer a Inês o que sentia, sofria por dentro, pois ela amava-o tanto ou mais do que aquela rapariga. E custava-lhe muito vê-lo apaixonado de verdade por outra pessoa. E o que podia ela fazer? Nada, absolutamente nada. Mas mais do que tudo, era amiga dele e lá no fundo, tudo o que queria era que ele fosse feliz. Só não percebia porque ele não podia ser feliz com ela...

A tarde foi agitada para ambos, pois tiveram de fazer um esforço de última hora para conseguirem acabar o draft das respectivas campanhas a tempo de enviarem as coisas ainda no final desse dia para os clientes. Ao final da tarde, Pedro reparou nas horas. Ia mesmo ligar a Inês a dizer-lhe que ia chegar atrasado, mas foi chamado de urgência pelo chefe que estava numa conference call com o cliente. Após essa reunião, o stress era tanto, que não se tinha mais lembrado de ligar a Inês. Já tinha passado quase meia hora da hora combinada, quando ele finalmente lhe ligou a dizer que estava naquele momento a saír do escritório e que ia já a correr para o restaurante. Sentiu logo pelo tom de voz dela que ela não tinha gostado muito fo facto dele não a ter avisado mais cedo, mas imaginou que ela iria compreender a situação assim que ele lhe explicasse o que tinha sucedido.

Quando ele finalmente chegou, dirigiu-se à mesa que tinha reservada, na qual já Inês estava à espera há cerca de três quartos de hora. A caminho da mesa, reparou no ar de Inês. Ele nunca a tinha visto assim. Ela tinha sempre um ar radiante e irradiava simpatia por todos os lados. Mas não era isso que ela aparentava hoje. Soube logo que tinha de pedir imensas desculpas pelo atraso e compensá-la de alguma forma. E achou também que talvez hoje não era o dia certo para dizer-lhe que a amava. Ele sentia claramente que o ambiente não estava apropriado para o que lhe tencionava dizer.

- Desculpa lá o atraso. Peço imensa desculpa, mas hoje tive mesmo um dia muito complicado no trabalho, e as reuniões que tive prolongaram-se por mais tempo do que estava à espera. Mas podes estar descansada que nem todos os dias são assim.
- Não há problema. Acontece... Só gostaria que me tivesses avisado que estavas atrasado. Não te custava nada e eu escusava de estar aqui sozinha. Sentia que toda a gente estava a olhar para mim, a ter pena de mim, pelo facto do meu namorado se ter baldado...
- Inês, se esse foi o teu problema, podes estar descansada. Tenho a certeza de que toda a gente estava a olhar para ti, mas por outro motivo. Eles estavam todos a olhar para a mulher mais bonita desta sala...

Inês não conseguiu evitar um esboço de um sorriso. Ele tinha esse efeito nela, e por mais que estivesse chateada com ele, ele conseguia conquistá-la novamente.

- Espero que não penses que os elogios desculpam o teu atraso... – respondeu, fingindo que estava ainda zangada com ele.
- Eu acho que os meus actos não têm desculpa. Qualquer homem seria parvo em deixar-te aqui sozinha, pois corria o risco de seres abordada de cinco em cinco minutos por alguém a oferecer-te uma bebida.... Por isso podes estar descansada, que esta será a última vez que isto acontece...
- È só mesmo por causa disso que vais fazer tudo para que isto nunca mais aconteça...
- Claro que sim.. Que outra razão poderia existir?

Ambos sorriram ao mesmo tempo. Pedro sentiu que este primeiro precalço tinha sido ultrapasssado, e que as coisas estavam a voltar ao normal. Ele sabia que tinha de fazer tudo para que esta relação corresse bem, porque a amava de verdade e não saberia o que fazer se a perdesse. Nada poderia correr mal e ele sabia que não poderia repetir os erros que tinha cometido no passado com outras mulheres.

- Queres então dizer que não confias em mim... – inquiriu Inês...
- Eu confio plenamente em ti. Não confio é nos homens que aqui estão. Eu conheço-os bem e sei que eles só têm uma coisa no pensamento.
- Queres então dizer que tu também só tens uma coisa no pensamento.
- Eu não. Eu sou diferente da maioria dos outros homens...
- Tens a certeza? Pela minha experiência, os homens são todos iguais...
- Nem todos. Se queres que eu te diga a verdade, todos os homens nascem iguais. Mas existem certos momentos na vida que nos mudam para sempre... – Pedro fez uma pequena pausa...- E um dos momentos mais marcantes foi quando que tu entraste na minha vida. E toda a gente que conheço dir-te-á isso.
- Tens a certeza? Se calhar é melhor pedir-te agora os telemóveis de todos os teus amigos e ligar-lhes para confirmar isso, antes de continuarmos a jantar – brincou Inês.
- Estás à vontade. Mas acho que podes poupar o teu dinheirinho. Podes confiar em mim.
- Posso mesmo? – perguntou Inês, mas desta vez com um tom mais sério.
- Podes ter a certeza que sim... Eu nunca te iria mentir ou esconder nada. Quero que a nossa relação seja o mais transparente possível. E não quero que exista nada que te faça duvidar disso.
- Sabes que a confiança é algo que se conquista.
- Sim, tenho a perfeita noção disso. Mas ainda não fiz nada que quebrasse a tua confiança em mim...
- Disseste bem... Ainda não fizeste nada. – disse Inês, tentando não mostrar o que realmente sentia, fingindo que se estava a meter com Pedro.
- Pois, mas podes ter a certeza de que isso irá continuar assim. Pois eu gosto muito de ti e não te queria magoar. E estou disposto a fazer tudo para que tenhas plena confiança em mim.
- Talvez possas começar por escolher o meu jantar... – disse Inês, que já estava com fome há algum tempo.

Pedro escolheu uma das especialidades da casa, o salmão grelhado, para os dois. Pediu também um vinho tinto já com alguns anos e que ele, apesar dos seus parcos conhecimentos em termos de vinhos, sabia que era dos melhores vinhos naquele restaurante.

Os dois estiveram a conversar durante a noite toda. Aquele pequeno precalço tinha sido ultrapassado e Pedro sentiu que a rapariga que estava agora à sua frente já era novamente a Inês por quem se tinha apaixonado. Mas de repente, Inês colocou uma cara mais séria e lançou uma pergunta, vinda do nada.

- Mas diz-me uma coisa? Achas que vou ficar à noite muitas vezes à tua espera?
- Só mesmo quando estamos próximos do nosso deadline e o cliente pressiona-nos para ter as coisas prontas para ontem.
- E isso acontece muitas vezes?
- Depende um pouco da campanha e do cliente. O meu trabalho é muito dinâmico e posso encontrar de tudo.
- Mas hoje à tarde, quando me ligaste, as coisas pareciam mais calmas.
- Tens toda a razão, mas isso não quer dizer nada. As coisas mudam ali dentro, de um instante para o outro. Basta o cliente pedir alguma coisa com urgência, que as nossas prioridades mudam logo. Posso dizer-te que antes do almoço, as coisas estavam calmíssimas e que eu pensava que iria sair cedo à tarde no escritório.
- Que engraçado. Já vi que o teu horário é muito flexível. Nem fazia a mínima ideia. Por exemplo, hoje até poderíamos ter almoçado juntos depois do meu exame. Bastava termos combinado para um pouco mais tarde, que dava...
- Normalmente sim, pois posso gerir o meu tempo. Desde que consiga ter a campanha pronta antes do deadline, posso ir almoçar à hora que quiser e voltar à hora que quiser. Mas por exemplo, hoje não podia, pois tive uma almoço de trabalho com um colega. Mas em qualquer outro dia, é só uma questão de combinarmos.
- Mas costumas dar-te bem com os teus colegas?
- Para ser sincero, o ambiente lá é um pouco competitivo, e mesmo quando estamos a trabalhar para a mesma campanha, todos procuram marcar pontos juntos dos chefes. Cada um está a fazer por si, pois só assim se consegue progredir na carreira. Mas para quem vê de fora, parece que todos lá dentro fazem parte da mesma equipa.
- Assim é complicado fazer amigos por lá... Nunca sabes se eles são mesmo teus amigos ou não.
- Lá dentro, são muito poucos os colegas em quem confio plenamente e que posso considerar como sendo meus amigos. Quanto aos outros, tenho sempre cuidado com o que lhes digo.
- E tens muitas colegas lá dentro na agência? – disse Inês, tentando mostrar de propósito o ciúme na sua voz.
- Algumas, mas podes estar descansada. Não existe nenhuma mulher como tu lá dentro.
- Sinto-me bastante mais tranquilizada – disse Inês, com um tom irónico muito perceptível para Pedro.
- Podes acreditar no que te estou a dizer. Não tenho nenhuma amiga lá dentro. As minhas colegas são todas muito competitivas e tenho uma relação estritamente profissional com todas elas.

Pedro nem imaginava que esta inofensiva mentira iria ter tantas repercussões. O que ele não sabia é que Inês tinha-o visto com Patrícia na hora de almoço. Por um acaso do destino, o restaurante que Rita tanto queria experimentar era o mesmo em que ele estava a almoçar. E Inês tinha visto, ao longe, o comportamente de Pedro para com a sua colega. Notou logo que eram duas pessoas chegadas e quando viu Pedro beija-la levemente na face, não conseguiu aguentar mais e saiu a correr do restaurante. Rita foi atrás dela e conseguiu acalmá-la um pouco.

- Tem calma. O que vimos pode ter uma explicação.
- Como é que ele pode enganar-me desta forma? Eu confiei nele... – disse Inês, já com lágrimas visíveis no rosto.
- Eu sabia que isto iria acontecer... Já com o Alfredo tinha sido a mesma coisa.
- Não estás a precipitar-te um pouco? Eu não vi nada fora do normal.
- Tu não viste o mesmo que eu? Ele está a enganar-me com aquela mulher...
- Inês, eu sei que o Alfredo magou-te muito. Mas isso não pode ser uma justificação para começares a desconfiar do Pedro por uma coisa que tu podes não estar a intepretar correctamente. Nem todos os homens são como o Alfredo. Ele traiu a tua confiança sem tu o esperares. E isso faz com que te seja difícil confiar em alguém novamente. Mas tu gostas dele. É o que me tens dito desde o dia em que o conheceste. Achas que vale a pena acabar com ele, sem lhe dar uma oportunidade de se explicar. Não achas que ele merece isso?

Inês ouviu as palavras da sua amiga e sabia que ela tinha razão. Mas já tinha saído magoada uma vez e não queria que isso acontecesse novamente. Mas ela tinha ficado tão incomodada em ver Pedro com aquela mulher desconhecida. Decidiu então esperar pelo jantar que iam ter à noite para clarificar a situação. Foi por isso que quando Pedro começou a mentir-lhe na cara dela, que ela não aguentou mais.

- Posso mesmo acreditar em ti? – perguntou Inês com alguma rispidez.
- Porque é que estás a dizer isso? O que é que passa?
- Já sabia que não devia confiar em ti. Não posso acreditar numa única palavra que me tenhas dito.
- Mas o que é que eu fiz para te irritar tanto?
- Tu sabes bem o que fizeste. Eu vi-te hoje à tarde... Com aquela mulher ao almoço...

Pedro foi apanhado em contrapé. Só lhe restava tentar justificar porque lhe tinha mentido. E esperar que os danos causados não fossem irreparáveis.

- Eu posso explicar...
- A única coisa que eu sei que é que tu me mentiste.
- Mas ela não é nada para mim... É só uma amiga...
- Uma amiga... Não foi isso que me disseste há bocado... Tu mentiste-me...
- Eu peço imensa desculpa, mas não foi por mal. Podes ter a certeza de que ela não é mais do que uma amiga. Podes acreditar em mim...
- Como é que eu posso acreditar em ti? Como posso acreditar numa única palavra que me vás dizer... Como é que eu sei que não me vais mentir novamente...?
- Inês, tem calma. Deixa-me explicar. Eu não sabia que me tinhas visto...
- Essa é a tua melhor justifificação?... Pensei que conseguias fazer melhor – interrompeu Inês, com um tom irónico.
- ... Eu não sei porque menti, mas na realidade eu podia ter-te dito a verdade. A mulher com quem me viste é mesmo uma colega e é uma das minhas melhores amigas, a Patrícia. Ela não é mais para mim do que uma amiga e podes perguntar-lhe que ela irá dizer-te o mesmo.
- Então porque é que não me disseste logo isso?
- Não sei porque tive receio de te dizer. Sinceramente, tive medo de dizer-te que estive a almoçar sozinho com outra mulher. Podias interpretar mal a situação...
- Ao invés do que aconteceu... Se não aconteceu nada de mais, porque é que tinhas medo de dizer alguma coisa? O que é que pensaste?
- Não sei. Na realidade, acho que não pensei. Entrei em pânico, pois achei que estavas um pouco estranha comigo quando falámos ao telefone hoje à tarde e não queria dizer algo que piorasse as coisas...
- E preferiste mentir-me.
- Se eu pudesse fazer tudo novamente, eu faria de maneira diferente. Mas agora não posso mudar o passado. O que queres que eu faça?
- Eu não quero que faças nada. Só quero é ir para casa...
- Inês, tu não queres que as coisas acabem assim. Eu tenho a certeza de que conseguimos resolver isso.
- Sinceramente, eu acho que não. Eu gostava de ti. Mas não posso estar com alguém em quem eu não confie. Eu já te tinha confessado que tinha sofrido muito no passado e tu prometeste não me magoar...
- Desculpa, mas.... – pediu novamente Pedro.
- Mas tu magoaste-te... Tu nem sabes o quanto eu gostava de ti. Eu pensava que eras diferente. Mas és como todo os outros... Não existe nada que possas fazer para que as coisas fiquem como dantes...
- Não existe nada que eu possa dizer ou fazer para que mudes a opinião?
- Infelizmente, acho que não. Nem consigo mais olhar para ti e falar contigo.

Um silêncio constrangedor invadiu a mesa, pois nenhum sabia mais o que dizer ao outro nesta situação. Notava-se que Inês estava triste e magoada, enquanto que Pedro estava com um ar desconsolado por saber que tinha estragado tudo. Passado cinco minutos, Inês levantou-se e disse que era melhor ela ir-se embora. Pedro ficou sem palavras e assistiu sem qualquer reacção à partida da única mulher que ele tinha amado na vida.

publicado por Matt Xell às 14:47
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Uma história sobre um rapaz (Pedro) e uma rapariga (Inês) que o destino acaba por juntar e que origina uma relação com altos e baixos...

Pedro é um rapaz que nunca foi capaz de se comprometer e que encontra em Inês a primeira rapariga por quem verdadeiramente sente algo... Mas ele desconhece por completo o passado de Inês e que irá trazer grandes repercurssões na sua relação.

Nem tudo corre como eles gostariam nesta história de amor, e por maior que seja o amor que os une, o destino parece querer que a sua história não tenha um final feliz...

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